A garota e o nada
Mais um pequeno Conto para apreciar
-------------------Boa Leitura!
A garota sentia
que não sabia de absolutamente nada. Não tinha um único hobby. Não gostava de
ver novela ou acompanhar nenhuma série. Muito menos via filmes. Não entendia de
números e não sabia conjugar direito nenhum verbo. Havia abandonado a escola. Era
ignorante sobre assuntos como biologia ou astronomia, até confundia isso com
astrologia. Muitos menos conseguia falar sobre política ou estatística. Mal
sabia quem era o atual presidente e buscava não pensar em contas que não fossem
as que precisava pagar. Não era apenas o seu conhecimento que era muito
restrito. Mas, também não sabia fazer nada. Nunca soube cozer, limpar, calcular
ou andar de bicicleta. Era medrosa como ninguém. Tinha receio de dar um passo
pensando que fosse cair. Não tentava. Não arriscava. Não costurava com medo de
furar o dedo. Não cozinhava com medo de se queimar ou se cortar com a faca.
Nunca havia andado de skate com medo de ralar os joelhos. Sentia-se tão
diminuta diante do mundo inteiro e diante de sua própria ignorância. Repetia
enfadonhamente que era uma garota cheia de grandes nadas. Nada que fazia levava
para algum lugar. Sentia que dava voltas e voltas e não saia de onde estava.
Estancada na vida. Não tinha assunto para falar com os outros porque todo mundo
parecia estar indo bem e fazendo coisas que ela não tentava fazer. As pessoas
acordavam, arrumavam-se e iam para faculdade, academia ou para o trabalho, e
até conseguiam fazer as três coisas num mesmo dia. Já ela se levantava com
preguiça, não fazia questão de sair da cama antes das onze e só levantava
quando o estômago fervia em dor pedindo comida. Comia apenas coisas congeladas,
que não exigiam habilidades culinárias ou quando seus bolsos estavam mais
fartos arriscava pedir comida encomendada. Mas, já havia perdido
as contas de quantas vezes não conseguia comer porque achava que a comida vinha
envenenada.
A sua
neurose só aumentava conforme envelhecia. Não passava dos trinta anos e já se
vestia apenas com blusas de lã e usava chalés nos ombros. Gostava de sair
usando uma touca preta e com óculos escuros. Não gostava de contato visual. Não
gostava de ser tocada. Era mais do que paranoíca, era quase louca. Tinha medo
de ir em alguma terapeuta e acabar sendo levada para um manicômio. Trabalhava
fazendo freelas dentro da própria
casa. Apesar de tanto medo, havia uma rotina chata que seguia todo santo dia.
Vivia os dias tão parecidos uns com os outros que nem fazia ideia de qual mês
que era ou que dia da semana. Vivia reclusa como um ermitão na cidade. Não
conhecia os rostos de seus vizinhos. Mal olhava para o porteiro do prédio
quando passava. Tinha vergonha da própria sombra. Qualquer barulho lhe fazia
tremer cheia de medo. Achava que a morte estava próxima. Todos os dias dormia
achando que nunca mais ia acordar. Mas, novamente, no outro dia, lá estava
abrindo os olhos e se vendo no próprio quarto. Não sabia explicar desde quando
era domada por essa insanidade sem fim. Lembrava-se de ser mais jovem e achar
que havia um complô contra si. Uma depressão que agravava. Uma loucura que se
expandia. Parecia que ser doida já era parte de si. Não era uma pessoa
interessada e muito menos interessante. Andava na rua sem chamar nenhuma
atenção, enrubescia se via alguém a encarando ou se alguém tentava falar com
ela. Queria afastar qualquer tipo de aproximação. Temia tantas coisas que era
mais fácil dizer o que não temia. Sentia-se uma verdadeira fracassada. Não
sabia tanta coisa que, às vezes, achava que era o próprio nada. Uma casca vazia
sem nenhum conteúdo. Só esperava o dia que sua carne se desmantelaria e não
mais pertenceria a esse mundo. Ao mesmo tempo que não desejava nunca morrer.
Não sabia muito bem lidar com tantas coisas que passavam em sua mente. Talvez,
pensava, devia procurar ajuda médica. Mas, desistia mais rápido do que havia
pensado nessa possibilidade.
Porém, como
era muito ignorante, não tinha nenhum pingo de sexto sentido ou sensibilidade.
Não era o tipo de pessoa que pressentia as coisas que poderiam acontecer.
Porque nunca acontecia nada em sua vida. Talvez, por isso, não tenha sentido
que aquela tarde de outubro seria atípica. Raramente saía de seu lar, o único
lugar que conseguia se manter bem, entretanto, até mesmo ela precisava sair de
vez em quando. Emergências aconteciam. Sempre fazia suas compras do mês pela
internet. Mas, um dia ficou muito gripada. Já se imaginava pegando uma
pneumonia e vindo a falecer em três dias. Queria sucumbir na sua cama, desistir
de tudo e deixar que a febre a dominasse. Sua cabeça doía muito, seu corpo
tremia e estava sentido calafrios que não a deixavam saber se estava com frio
ou calor. Porém, esforçou-se e caminhou em passos lentos até a farmácia mais
próxima. Já não aguentava como estava se sentindo. Havia ponderado o que seria
pior: buscar medicamentos na farmácia ou ir até um pronto-socorro? Achou que um
hospital era infectado de doenças, e assim, iria morrer em apenas dois dias, em
vez de três. Por isso, quando entrou na farmácia pegou rapidamente todos os
medicamentos que pareciam ser para gripe, resfriado e afins. O atendente atrás
do caixa era um homem de mais ou menos a sua idade. Ele ficou a encarando sem
cessar. Ela só queria sair logo dali e tomar a sua medicação. O homem quis
saber se ela estava bem, mas ela só afirmou com a cabeça. Não queria nenhuma
conversa. Odiava papo-furado. Nem sabia falar mais de tão pouco que usava a sua
voz. Quase sofreu ao dizer que ia pagar no crédito. A sua voz saiu tremida e
ela quase levou um susto ao se ouvir. Nem lembrava mais o tom de sua própria
voz. Contudo, antes que pudesse digitar a senha do cartão sentiu uma vertigem.
A sua vista começou a escurecer. Não entendeu o que estava acontecendo até que
tudo ficou preto.
Quando
acordou estava deitada numa cama de hospital com um acesso no braço que lhe
dava soro. O mesmo homem da farmácia estava sentado numa cadeira próxima. Ele
fez diversas perguntas, ela não queria responder, mas se viu se esforçando para
falar. Estava grogue dos remédios que estava recebendo. Logo soube que era uma
gripe muito forte somada a uma grave desnutrição. Lembrou-se do seu medo de
comer comida e engasgar. Isso a fazia não se alimentar direito. O médico a
liberou três horas depois, entregou uma receita com uma lista de remédios,
várias recomendações sobre alimentação e um encaminhamento para uma psicóloga.
Obviamente o doutor não tinha noção de todas as suas neuras, porém, já havia
captado que aquela garota precisava de ajuda. O homem da farmácia a levou para
casa de táxi. Ela se sentia muito fraca para protestar. Só queria chegar em
casa e tomar banho. Tinha ido na farmácia porque não queria pegar doenças no
hospital, e agora, tinha ido aos dois lugares num pequeno espaço de tempo. A
gentileza daquele desconhecido a deixava cismada. Não entendia porque uma
pessoa sem nenhum tipo de vínculo podia ser gentil. Quando chegou na sua casa,
achou que ele fosse entrar, derrubá-la no chão e estuprá-la. Como ele não fez
nada disso, foi tomar um banho, porém, trancou o trinco. Saiu do banho e vestiu
moletom. Queria expulsar aquele desconhecido do seu lar. Todavia, estava tão
desacostumada a falar que não sabia quais palavras deveria usar.
Quando saiu
do banheiro, sentiu um cheiro agradável. Caminhou até a cozinha e o homem
estava cozinhando. Quase chorou quando o viu cortando a cenoura, achou que a
faca pegaria um dos dedos dele e ela teria que lidar com um desconhecido sem
dedo na sua casa. Mas, ele não se feriu. O homem da farmácia fez uma canja para
ela. A garota que não sabia de nada o olhou espantada. Ele deveria estar só
esperando ela dormir para roubar tudo o que ela tinha. Quase enfartou de tanto
medo ao pensar nisso. Mesmo assim, com medo de que tivesse uma indigestão ou
morresse envenenada, comeu a sopa. Estava quente e saborosa. Ele também se
serviu. O homem falava demais. Falava sobre tudo. Sobre a decoração do
apartamento, sobre a sopa, sobre o ocorrido na farmácia, sobre o hospital...
Não calava a maldita da boca um único minuto se quer. A garota mal o ouvia, só
saboreava a sopa e tentava fingir que não havia nenhum tipo de som. Ele se
despediu e foi embora antes que ela pegasse no sono. Estava feliz por não
morrer intoxicada. Quatro dias depois, estava totalmente renovada. Uma pessoa
normal, talvez, fosse até a farmácia e levaria algum mimo para agradecer a
gentileza. Porém, desconhecia esse tipo de atitude e não se sentia na obrigação
de agradecer. Ele fizera porque quis. Simples assim. Era o seu pensamento. Mas,
nem todo mundo pensa da mesma forma. Por isso, uma semana depois de sua
melhora, ouviu a campainha tocar. Normalmente ignorava até parar. Mas, não
parecia que ia parar. Tocava sem cessar, invadindo sua mente e enlouquecendo-a
mais um pouco, mais do que já se sentia louca.
Abriu a
porta com raiva sem olhar quem era. Arrependeu-se no mesmo minuto. O homem da
farmácia estava na sua frente. Já havia planejado nunca mais voltar lá só para
não o ver mais. A verdade é que quando abriu a porta sem perceber tinha deixado
aquele homem entrar na sua vida. Foi isso o que aconteceu. Sem ser convidado,
ele aparecia toda semana. Primeiro, havia sido visitas apenas para saber como
ela estavam e duravam menos de dez minutos. Depois, ofereceu-se para ajudá-la
com a desnutrição. Começou a lhe preparar o jantar. Quase três vezes por semana
vinha visitá-la. Fazia a janta, jantava e partia. Depois ofereceu-se para fazer
o almoço de domingo. Convidou-a para ir à um supermercado para escolher os
alimentos que seriam cozidos. A garota estava sendo levada. Era tão tola e
ingênua que nem estava percebendo. A sua sorte era que o homem era bom. Não
havia intenções malignas. Era um homem querendo conhecer uma mulher.
Esforçando-se para ser notado. Havia percebido que a jovem que desmaiou na sua
frente precisava de muitas coisas. Precisava sair da bolha que vivia, precisava
caminhar do lado de fora de casa, precisava de alguém que a tirasse da sua zona
de conforto. Responsabilizou-se por tudo. Não que alguém tivesse lhe pedido.
Havia sido uma escolha. Começou a entrar na vidinha dela de forma sutil.
Primeiro, alimentou-a. Depois, puxou-a para uma caminhada. Fez ela perceber que
a comida era vital. Se mastigasse devagar, não teria como morrer engasgado.
Falou que envenenamento seria um mal negócio para os restaurantes, todos iriam à
falência. A jovem riu e entendeu. Ele reforçou a importância de tomar sol,
afinal fazia bem para a pele, em vez de se trancar em casa.
Aos poucos,
tudo mudou. Não tinha mais tantos medos. Começou a sentir vontades que nunca antes
havia sentido. Vontade de conhecer o mundo ao seu redor. Era algo maluco. Esse
desejo profundo que nascia no peito dela. Começou a se sentir envergonhada por ter
sido tão desinteressada em tudo. Por ter sido uma perita em não fazer nada. Ele
dizia para ela não se sentir assim, reverter o cenário para que o nada virasse
tudo. Começou a trazer livros para que os dois pudessem ler. Começou a mostrar
as séries que adorava ver na TV. Ensinou o que sabia sobre cozinhar, mostrando
que com cuidado tudo ficava bem. Ensinou que a melhor forma de seguir adiante
era ser cauteloso. Mostrou que o medo era importante, mas que não devia reger a
vida. Senão, você não fazia nada. Nada era algo bom para se fazer de vez em
quando, mas não podia ser a sua rotina. Não era preciso fazer faculdade,
trabalhar e ir na academia no mesmo dia. As coisas podiam ser alternadas. O
homem enfatizava que nós, seres humanos, éramos donos de nós mesmos e que cada
um tinha as suas próprias dificuldades, a sua própria loucura, no entanto, era
preciso se respeitar e compreender as suas necessidades, vontades e limites. A
garota sentia-se uma aprendiz. Era fascinante. Em menos de meio ano, o ritmo
era outro. Os dois faziam várias coisas juntos desde cozinhar até ficar lendo
livros ao mesmo tempo.. Ela voltou a falar. Falava muito menos do que ele, mas,
começou a sentir o prazer de um bom diálogo.
Ele não
sabia nada de química, mas ensinou o que sabia sobre história, matemática,
português e geografia. A garota que sempre havia pensado não saber nada, viu
que sabia mais coisa do que pensava. Era tão hipocondríaca e maluca, que sabia
qual medicamento usar para qualquer situação. Tinha tanto medo de morrer com um
raio na cabeça, que sabia quando devia levar guarda-chuva mesmo quando a
previsão da meteorologia dizia que só ia fazer sol. Entre outras coisas que o
ensinou. Pela primeira vez na vida sentiu gratidão. Segurou a mão dele e deu o
seu primeiro sorriso. O homem quase morreu de surpresa; vê-la sorrir havia sido
um golpe baixo. Naquele momento, ele tinha plena certeza de que estava certo.
Os dois estavam, na verdade. Ele segurou a mão dela com mais força. Sem pensar
a puxou para um abraço e beijou o topo de sua cabeça. Queria beijar-lhe os
lábios, mas se segurou. Uma coisa de cada vez. Não teria pressa, afinal tudo
tinha o seu tempo. Sabia respeitar isso. O tempo necessário para que as coisas
mudassem. A garota não o empurrou, pelo contrário, ela o segurou com muita
força. Era como se fosse uma espécie de salvador. Aquele que havia lhe feito
enxergar o mundo de outra forma. Quem havia feito que ela parasse de se sentir
tão nada e pudesse dar oportunidade para sentir de tudo. Ela lhe disse isso. O
homem sorriu e só afirmou que a maior parte do trabalho era dela, afinal, as
coisas só mudam quando estamos dispostos e havia sido isso que mudou tudo: a
garota-nada havia se tornado a garota-disposta.


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