A Voyer
Um dos contos que nunca publiquei
Boa leitura.................................................................................................................!
Abri meus olhos, acordando, numa manhã de segunda como todas as outras que já levantei. Mas, algo estava diferente. Havia algum tipo de sabor em meus lábios, um gosto ruim de que algo estava para acontecer. A minha mente dizia que eu havia tido algum tipo de pesadelo que suga o seu ânimo antes de você se levantar. Um daqueles que antes que você mal abra os olhos já sente que sua energia foi toda drenada. Mesmo assim, eu me espreguicei e olhei no relógio. Já passava das sete. Eu estava extremamente atrasada. Pulei da cama direto para o chuveiro. Afinal, apenas um banho imensamente gelado seria capaz de me despertar durante o frio do fim do mês de junho. A água gelada me arrepiou do fio de cabelo ao dedão do pé, mas, um minuto depois eu sentia que qualquer resquício do pesadelo já havia sido disseminado.
Vesti as primeiras peças que achei no armário. Um cashmere mais preto do que a noite e
calças jeans. Passei um cachecol xadrez pelo pescoço e deixei a bolsa tiracolo
caída sobre o ombro direito. Agarrei uma caixinha de leite achocolatado,
tranquei a porta do apartamento e saí correndo pelas escadas do prédio sem
elevador. Pulei para fora do portão, já avistando o meu ônibus virando na
esquina. Corri, como sempre fazia todos os dias, loucamente para não perder o
meu transporte. Antes de chegar no ponto-de-ônibus, já me aproximei correndo e
fazendo o sinal. O motorista piscou quando eu entrei e eu sorri em forma de
agradecimento. Não havia muito o que dizer. Passei pela catraca, já me
apertando entre tanta gente que havia naquela hora da manhã.
Abri a bolsa e tirei um livro. Mesmo ali espremida, eu
ainda queria ler. Era quase uma hora só para chegar no metrô. Dava tempo de ler
metade de um livro com poucas páginas. Antes de me distrair com a leitura, eu
dei uma olhada ao redor. Muitas pessoas vestiam roupas de trabalho. Havia um
homem segurando o terno em um dos braços. Uma mulher com uns óculos vermelho
que estava tentando fingir que não o encarava. Imaginei se era a forma que ele
havia dobrado a camisa que a agradava. Ou se era o perfume cítrico dele que
estava impregnando o ar. Ou talvez, se era a ignorância dele sobre a existência
dela, que a encantava. Num outro canto, uma senhora mexia no celular sentada ao
lado de um velhinho que cochilava babando um pouco na própria calça. Desviei os
olhos para a rua. Um homem passeava com um cachorro. Uma mãe carregava um
carrinho de bebê. Carros passavam no sentido inverso do ônibus. Havia um rapaz
carregando um saco de papel que parecia cheio de pães. O mundo estava se
mexendo. Sorri e até desisti de ler. Por mais que eu quisesse apreciar a
leitura. Afinal, o mundo não parava e isso me agradava ver.
O mundo parecia mais interessante nessa manhã. Logo eu
estaria no trabalho e não poderia mais bisbilhotar muito mais do que meus
colegas das mesas ao lado. Mas, o mundo ficaria aqui se mexendo, vivendo,
acontecendo... E isso teria que me bastar. Eu ficaria sentada por mais de nove
horas numa cadeira, escrevendo relatórios, e vendo o relógio digital do meu
notebook mostrando os minutos passando. Mas, isso não me sufocaria. Porque
havia um certo prazer em cumprir o meu dever. A rotina não me era desagradável.
Algumas pessoas reclamariam. Falariam que vida mais chata. Essa vida tão mínima
e sem sonhos. Mas, eu só consigo sorrir ao lembrar que existe um dia após o
outro. E que você pode tentar de outras formas se algo der errado. E que mesmo
que suas chances passem, pode haver outras a quais se agarrar. Alguns me
chamariam de ingênua, mas eu gosto de pensar que vejo o mundo com outros olhos.
Pois, qual culpa existe em mim se eu vejo graça na monotonia do dia-a-dia?
Olhando através da janela do ônibus, eu via um mundo
inteiro. Não que eu pudesse inteiro presenciá-lo ou apreciar cada nuance.
Entretanto, algo me confortava em saber que existia algo além de mim mesma. E
isso era especial ao meu jeito. Compenetrada no mundo, abandonando a minha
leitura diária e deixando o motorista do ônibus guiar meu trajeto, mal percebi
quando chegou a minha vez de descer. Levantei num impulso, já dando sinal e
saindo correndo. Pois, apesar de apreciar a vida alheia, eu já estava atrasada
na minha. Peguei a fila para passar pela catraca do metrô e outra para entrar
no vagão. Só consegui entrar no segundo trem que veio. Eram apenas sete estações
até eu chegar na qual ficava próxima do meu trabalho. As estações foram
passando e os meus olhos passeando por cada um que ali dividia o seu tempo
comigo. Um casal se abraçava carinhosamente. Um senhor lia um livro grosso com
capa preta que eu não consegui ler o título. Uma mulher magra, que parecia uma
modelo, estava parada, segurando o ferro do metrô, tentando se equilibrar num
salto agulha azul. Um jovem tinha fones- de-ouvidos maiores que as suas
próprias mãos. E outro fingia dormir para não dar lugar para a senhora que com
muita dificuldade se equilibrava. A verdade é que existe todo o tipo de gente
nesse mundo. O sinal de que estava na minha estação me alertou e eu saí pela
porta sem olhar para trás. Subi as escadas e saí pela catraca. Ainda tinha dez
minutos andando até chegar no prédio do meu trabalho.
Quem sabe, tenha sido a pressa. Eu nunca saberia dizer.
Ao sair do metrô, totalmente distraída, eu só conseguia me concentrar que já
passava vinte minutos no meu tempo de entrada. Mas, assim que o sol voltou a
tocar a minha pele, o gosto ruim retornou para a minha boca. Um fel invadiu
cada parte de minha língua e eu engoli um amargor que há tempos não sentia. O
prazer de observar foi tomado por um alerta silencioso. Apressei os meus passos
com medo de que alguma coisa não muito boa acontecesse. Porém, dizem que a
pressa é inimiga da perfeição. Eu sempre acreditei nesse ditado. E concordei
ainda mais, quando apressada atravessei sem olhar para os lados. O som do
freado me alertou e eu tentei desviar, mas eu me desequilibrei. O metal tocou o
meu corpo, impulsionando-o para longe. A bolsa foi jogada para trás caindo
sobre o asfalto. O sangue ficou escondido embaixo da penumbre do cashmere. O gosto amargo na boca foi
substituído pelo gosto de ferro. Sentia algo quente escorrendo pelo meu queixo.
Levei a mão até o rosto, só para ver os meus dedos totalmente vermelhos. Olhei
para o céu tentando achar algum tipo de consolo.
O trânsito se aquietou. Senti olhos sobre mim. Um peso
descomunal sobre as pálpebras que teimavam em fechar. Nada parecia fazer
sentido. Eu tentei ouvir algum som familiar. Alguma buzina, algum som de pneus
sendo arrastados pelo asfalto, qualquer som... Mas, era só um burburinho
curioso. A curiosidade que eu sentia silenciosamente pelos outros parecia ter
se revertido. Agora, nesse exato momento, todos pareciam curiosos sobre mim.
Ouvi ao longe algum pio de algum pássaro desconhecido. Um som melódico. A minha
mente começou a se desconectar e o meu corpo começou a sentir um imenso frio.
Eu não queria parar de observar. Logo vi algumas cabeças me encarando.
- Você está bem?
Eu ouvi alguém falar. Mas, a voz foi ficando cada segundo
mais e mais distante de mim. Como se falasse dentro de um buraco. O eco era
emitido até que se espalhava mundo afora e se silenciava de forma desagradável.
Queria entender, queria estar alerta e atenta. Mas, um sono foi me dominando. A
minha vista começou a falhar e a perder o foco. Eu queria lutar. Queria
permanecer aqui. Queria tanto observar em vez de ser observada. Tecer sobre a
intimidade alheia.
- Por favor, não feche os seus olhos.
Ouvi alguém pronunciar ao meu lado. Eu virei o rosto para
onde imaginei que viesse a voz. Não havia dúvida alguma sobre chegar atrasada.
Agora, eu nem sabia se chegaria. Senti uma moleza me dominando cada nervo. Uma
fraqueza súbita e uma dor tão aguda que me inebriou. As coisas começaram a se
dobrar na minha vista e o céu foi tomado por dois imensos e amarelos sóis. A
luz do dia tomou totalmente a minha vista. Essa claridade foi me cegando até
que se esmorecesse toda a minha visão. Ao ponto de que o claro se tornou escuro
e a escuridão foi me tomando completamente. Queria berrar que não me tapasse os
olhos. Que me deixassem ver. Afinal, eram os meus olhos que me trazia alegria
nesses dias. Mas, o breu dominou-me. Ainda conseguia ouvir. Ainda conseguia
distinguir vozes e pessoas ao meu redor. Como se a vibração do som ao bater na
superfície fosse capaz de criar outro som e eu pudesse assim enxergar que ao
meu lado havia presença. Porém, o som foi diminuindo, afastando-se até que o
silêncio me consumiu.
Mas,
eu ainda sentia o asfalto pelo meu tato. Senti meu corpo sendo levantado.
Talvez, alguém havia me colocado sobre alguma espécie de madeira dura e plana.
Algum tipo de maca, talvez. Mas, a minha pele foi adormecendo. Ao ponto de que
eu já não mais conseguia sentir nada. Senti o cheiro de ferro do meu próprio
sangue dominando as minhas narinas. Um cheiro forte de asfalto queimado
misturado com poluição. Mas, até o olfato me foi tomado. Concentrei-me no gosto
de fel em minha língua. Era a minha última esperança. Eu preferia sentir o
gosto amargo a não sentir... Nada. Nada. Eu já não sentia absolutamente nada.
Nenhum sentido me era prestigiado. Tudo parecia solitário e sem sentido. E eu só
queria poder ter a chance de continuar a observar. Porém, o silêncio foi
impregnante. O som, o tato, a visão, o cheiro e o sabor me foram tirados. Mas,
a sensação de perda foi maior ao me dar conta de que não conseguia mais ver.
Agora só me restava um imenso vazio que eu não sabia como domar.



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