Comprovadamente estranha

 Um dos contos que nunca venci nenhum concurso!


Boa leitura!

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Faz cerca de dois anos que eu tive uma suspeita de epilepsia focal. Tive um desmaio em circunstâncias estranhas. Desmaiei tomando banho, de olhos abertos, enquanto meu corpo se mexia sozinho e eu sonhava com desenho animado que uns minutos atrás acabara de assistir. Parecia uma cena de filme indie de categoria B. Foram alguns minutos nesse estágio, para eu olhar de forma vaga, questionar se havia desmaiado e fechar os olhos em um desmaio mais convencional. Tudo era tão esquisito que tive que ser encaminhada a um neurologista. Diante de um acontecimento tão esdrúxulo, ele me pediu uma série de exames. Fiz todos eles sem saber muito bem o que esperar. Um medinho de que tivesse com alguma doença grave. Nem arrisquei procurar nada na internet. Porque 99% das vezes sempre indica que você está com algum tipo de câncer raro e sem muita chance de cura. Dias depois de fazer todos os exames, e de me sentir um ratinho branco de laboratório, voltei para o consultório com os resultados.

O médico, que era um homem alto, largo e com uma cara que misturava um ogro com traços de bobeira, me encarou de forma extremamente tediosa. Parecia que ele queria apenas acabar logo com tudo aquilo. Ele ajeitou os óculos sobre o nariz oleoso, passou a mão pelo cabelo ralo e me olhou nos olhos. Aquela troca de olhar me deu uma espécie de calafrio. Eu não me sentia nada confortável. Sendo muito sincera, aqueles olhos pretos tediosos e rabugentos me davam uma sensação diminuta. Naquele consultório minúsculo, situado no meio de um prédio velho na avenida mais importante da cidade, eu só conseguia me sentir muito pequena. Menor do que aqueles mosquitinhos que pairam sobre frutas podres. O jeito meio cansado e taciturno do médico me fez pensar que ele diria que eu tinha apenas algumas semanas de vida igual uma pequena borboletinha. Antes dele abrir a boca, eu já sentia um arrepio percorrer pelo o meu coro inteiro. Mas, eu me mantive firme. Apenas aguardando a quebra do silêncio e que ele me sinalizasse o problema. Porém, quando ele finalmente falou, eu só queria que ele tivesse se mantido mudo.

- Senhora, existe uma alteração cerebral. – Ele apontou para a radiografia do meu cérebro. Apontou para a imagem como se eu pudesse entender o que significava aquelas manchas. – Veja que aqui nessa parte você possuí uma alteração numa área muito grave do seu cérebro.

O meu coração parou. Eu só consegui entender as palavras alteração e grave. Eu tinha uma alteração grave. A minha mente começou a repassar o significado de grave: preocupante, sério, crítico, dramático, perigoso, delicado, complicado, inquietante, importante, violento, profundo, forte, pesado, acentuado... Entre outros sinônimos. Respirei fundo, mas o ar não pareceu suficiente. Realmente senti os meus olhos se encherem de lágrimas bem devagarzinho. Sentia a água surgindo nos cantos dos olhos. Algo quente os dominando. Já previa a lágrima escorrendo antes mesmo de uma delas se atrever a rolar pela minha face. Tentei segurar o choro. Afinal, eu era uma moça crescida, não era? Eu tinha idade suficiente para aguentar esse baque. Lamentei estar sozinha naquela sala. Eu deveria ter chamado alguém.

- Lamento informar, entretanto, com o seu quadro médico e essa alteração, tudo indica que você possui epilepsia focal. – O doutor não pareceu ter um pingo de dó de minha pessoa. Talvez, outras pessoas já tinham chorado ali naquela sala. Para ele não deveria fazer muita diferença. Ele parecia frio. Um verdadeiro cubo de gelo. Daqueles que se você for com muita pressa e encostar a língua, a sua língua gruda e só por Deus que desgruda.

Epilepsia Focal. Confesso que nem fazia ideia que poderia haver mais de um tipo de epilepsia. Depois eu fui procurar que a doença também era chamada de epilepsia parcial ou crise jacksoniana. Significava que a doença era caracterizada por convulsões em uma área limitada menor que um hemisfério cerebral. E que as crises parciais podiam ser expandidas para crises totais que afetassem todo o cérebro. Essas crises normalmente aconteciam por um ou dois minutos e podiam ser simples ou complexas. As simples não possuíam perda de memória ou consciência, mas podiam causar movimentos involuntários e alterações de emoções e sentidos. Enquanto, as complexas afetavam a consciência, a memória e o comportamento causando ausências temporárias em que a pessoa podia perder totalmente o sentido sem fechar os olhos ou desmaiar propriamente dito. Ao recordar do episódio no banheiro, posteriormente eu chorei. Obviamente tudo indicava que eu tinha essa doença.

No caso, seria mais uma doença, porque eu havia já sido diagnosticada com trombofilia, uma doença autoimune que causa uma alteração na coagulação sanguínea. Mas, eu podia suportar. Era só mais uma coisa a tratar, uma nova coisa a lidar, eu era forte, eu não teria problema algum... Observei o médico puxar um papel e escrever alguma coisa. Ele parecia ainda mais cansado do que eu. Fiquei me questionando porque havia entrado naquela sala. Se eu podia rebobinar aquele dia. Queria saber se um único episódio era capaz de me diagnosticar com algo tão grave.

- Estou te prescrevendo anticonvulsivante. Vamos iniciar um comprimido toda noite e depois que se acostumar dois por dia, um de manhã e outro a noite. Você precisará fazer exames de rotina... – a voz do médico foi se perdendo no ar. Eu não queria tomar remédio para isso. Gelei. Não queria tomar Rivotril ou Gardenal ou qualquer outro medicamento. Na verdade, ninguém quer tomar nenhum remédio. Quem gostaria de tomar remédio controlado? Tirando alguns doidos, porque sempre tem os doidos, nunca conheci ninguém que amanhecesse e falasse: nossa, que vontade maluca de tomar remédio controlado hoje. Claro que se não haver jeito, o melhor é a aceitação. Você aceita a forma que é, respeita os seus limites e se adapta. Mas, algo estava me incomodando loucamente. Eu não queria simplesmente virar e dizer: Ok. Vamos lá. Me dê essa receita que vou correndo buscar o meu remédio na farmácia.

- Você pode me indicar um neurologista especialista?

O médico me encarou com um olhar de peixe morto. Daqueles já passados do ponto que os olhos coloridos já estão cinza-esverdeados. – Pois não?

- Você pode me indicar um neurologista especialista em epilepsia? Desculpe, não estou duvidando da sua capacidade. Mas, veja bem, eu já tenho as minhas próprias limitações. Eu já fiz um tratamento por anos e hoje tenho as minhas barreiras porque já tenho uma doença autoimune. Ainda nem fiz trinta anos. Não quero simplesmente aceitar mais um diagnóstico e dizer que está tudo bem.

Eu conseguia sentir o peso de cada palavra que falei. O médico amassou a receita e puxou uma outra folha de papel. Nela, ele escreveu um nome e um telefone. – Essa minha colega é especializada em epilepsia. – Simples assim. Eu peguei o papel com as mãos tremendo. Cumprimentei-o num aperto de mãos e parti desejando nunca mais pisar naquele consultório. Saí dali meio mexida, tremendo que nem uma vara verde, mas, decidida a ligar para aquela tal colega. Foi o que fiz. Dias depois, entrei em outro consultório, numa rua que era mais fácil acessar por carro do que por transporte público. Era num dos bairros mais caros da cidade e o prédio era uma clínica de várias especialidades divididas por cada andar. O consultório tinha cheiro de limpeza, o chão era tinindo, existia até uma salinha com TV, uma máquina de café que moía grãos na hora à vontade e um banheiro perfumado. Era um local totalmente diferente do primeiro que eu havia ido.

Porém, o maior impacto não foi o local. Foi a pessoa. Quando entrei na sala, eu me vi diante de uma mulher cheia de energia. A médica era sorridente, simpática, parecia de bem com a vida e não me olhou como se eu fosse um pedacinho de pano preso numa varanda. Ela me cumprimentou com um abraço, ouviu os meus lamentos, todo o meu causo e depois disse com a sua voz cheia de calor:

- Só investigando saberemos. Mas, vou pedir um exame muito mais detalhado.

Exame detalhado: leia-se uma internação de vinte quatro horas em um hospital no centro da cidade, com a cabeça presa a muitos fios, com direito a uma fita vermelha presa no pulso escrito PERIGO DE QUEDA, uma roupinha não muito atraente do hospital e só podendo urinar numa comadre. Mas, eu sentia que ia valer a pena. Porque se depois disso tudo indicasse que havia algo errado comigo, estaria certa de que haveria mesmo. Afinal, depois de um exame de vinte e quatro horas, tudo o que saísse dele seria gravado como ferro em brasa num pobre boi. Eu tinha que ter certeza. Era tudo o que eu pensava. Por isso, que quando o exame chegou na médica e a recepcionista me ligou para dizer que na outra semana eu tinha o meu retorno, algo me dizia que minha vida estava mais uma vez sendo decidida. Não por mim. Pelos causos da vida mesmo. Porque uma coisa que eu aprendi é que muitas vezes não somos os donos da própria vida. O que temos que fazer é dar o nosso jeito.

Mais uma vez, eu me vi sentada de frente com aquela doutora sorridente. Primeiro, ela quis saber da minha vida. Foi simpática, calorosa e gentil. Mas, enquanto, eu fazia um pequeno resumo, já confirmando que nenhum outro episódio como aquele havia sido repetido, ela abria o envelope. Seria mentira se eu falasse que não tremi quando as mãos dela puxaram o papel de dentro, enquanto ela observava cuidadosamente as radiografias. Fiquei firme. Tentei sorrir. Porém, só um sorriso torto saiu dos meus lábios. Uma espécie de riso amarelo, em que eu me vi fazendo um hehe em alto e bom som sem motivo aparente. A médica ficou alguns segundos em silêncio enquanto lia toda a análise do médico do hospital. Depois me encarou com os seus grandes olhos e deu um risinho encorajador.

- Realmente existe uma alteração. Sendo sincera, existe até uma alteração pior do que a do outro exame. Não é à toa que o outro médico lhe diagnosticou assim.

Chorei por dentro. Mas, me mantive intacta por fora. Eu precisava ouvir até o final.

- Porém, não acho que temos sintomas suficientes pra te enquadrar como uma epilética. Para ser diagnosticado com epilepsia focal é preciso que haja uma série de crises e sintomas. E ter apenas um episódio isolado não é suficiente para afirmarmos com todas as letras que você possui essa doença. Sendo sincera, pode ser que a sua constituição cerebral seja dessa forma. Sabe quando existem pessoas que possuem órgãos maiores do que a média das pessoas, mas isso não muda absolutamente nada a vida dela...? Pode ser que a pessoa só tenha um órgão maior e fora do padrão desde que nasceu. Não sabemos sem termos um histórico.

O alívio me dominou. Senti um peso evaporando dos meus ombros. Nem sabia o que dizer.

- Concluo que nesse momento, a medicação seria uma saída mais grave, causando maiores limitações na sua vida do que esse episódio isolado. Mas, é preciso que fique atenta caso alguma coisa dessa forma aconteça novamente.

A doutora terminou de dizer isso. Levantou-se e veio me abraçar como se sentisse que eu precisava mesmo de um abraço. Só havia gratidão em meu peito. Comecei a falar várias palavras de agradecimento e alegria. Havia sido uma explosão de dizeres que nem consigo me recordar tudo o que falei.

- Espero que se vier me visitar, que da próxima vez, seja apenas para um cafezinho. – A médica se despediu de mim dessa forma. Saí do consultório flutuando de alegria. Um problema a menos para me importar. Um alívio grandioso. Quase inexplicável. Sentia que estava voando pela rua, enquanto, andava quarteirões até o ponto de ônibus mais próximo. Nunca me senti tão realizada em ir a fundo para compreender um problema. Queria gritar aos quatro ventos. Queria berrar para todo mundo ouvir:

- Não sou epilética! Eu só sou comprovadamente estranha! Está aqui nos exames que seguro em minhas mãos, meu cérebro é esquisito. Esquisito que nem a dona. Único. Do jeito dele. Enganador. Quase me fez ter um susto. Só foi crescido meio tortinho, com as suas sinapses malucas. Sou completamente esquisita. Mas, é só isso. E ser estranha desse jeito é maravilhoso!

 

 

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